terça-feira, 11 de agosto de 2015

Noite de reverência ao Mestre Candeia

 

  

    Foi emocionante vivenciar, na Lapa, o Circo Voador repleto para homenagear o meu imortal amigo e parceiro Candeia, que estaria chegando aos 80 anos, e ver a multidão cantando, com Cristina Buarque,Teresa Cristina, Monarco, Martinho da Vila e Paulinho da Viola, alguns dos seus maiores sucessos. A Cristina Buarque foi, aliás, quem gravou as duas músicas da minha parceria com o inesquecível mestre, pensador e partideiro: "Saudade" e "Morro do Sossego". 
      O show culminou com uma das suas obras-primas, O "Dia de Graça", em que ele conclamou: "...Negro, acorda, é hora de acordar/ Não negue a raça/ Torne toda manhã/ Um dia de graça/...Deixa de ser rei só da folia/ E faça da sua Maria/ Uma rainha todos os dias/ Cante o samba na universidade/ E verás que teu filho/ será príncipe de verdade./Aí, então,/ jamais tu voltarás/ ao barracão."
      Como eu me senti feliz e irmanado no meio de tanta gente boa ! E, antes que a Teresa Cristina emendasse com uma roda de jongo, ainda tive o prazer de confraternizar com o Jairo, filho do Candeia, e conhecer o Leandro, o neto que nasceu no ano seguinte ao da sua morte, aos 43 anos, em 1978. Foi só por um ano que o Leandro não pôde conhecer o renomado avô, e eu não pude reencontrá-lo ao retornar do exílio com a Lei da Anistia, em 1979.
                                           Arthur Poerner



 
 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Cuba X EUA, um primeiro passo acertado


Aos amigos, a versão final do artigo inspirado no reatamento das relações diplomáticas entre Cuba e os EUA.

 


       
 Depois de exibir a substanciosa entrevista concedida pelo escritor cubano Leonardo Paduro ao Alberto Dines, nosso decano na longa carreira jornalística, o também sempre denso OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, da TV Brasil, teve a felicidade, na semana passada, de poder se aprofundar no assunto graças ao reatamento oficial das relações diplomáticas entre Cuba e os Estados Unidos, um dos temas do momento no noticiário internacional.  
       Tais relações haviam sido rompidas há 54 anos, em 1961, pelos EUA, depois que a Revolução Cubana, vitoriosa em 1º de janeiro de 1959, com a queda e fuga do ditador Fulgencio Batista, adotou uma série de medidas populares consideradas inaceitáveis por Washington, a começar pela reforma agrária, com um confisco de terras que incluiu, no que se referia ao cultivo da cana-de-açúcar, os 40% de plantações sob propriedade norte-americana, além da nacionalização das refinarias de açúcar e de petróleo. 
       E Cuba não cedeu na firmeza, na coerência e na intransigência tão indispensáveis na conquista da liberdade: não quis voltar aos tempos em que os EUA, que controlavam o mercado açucareiro, não hesitavam, quando julgavam ameaçado qualquer dos seus interesses, em intervir, militarmente, na Ilha. Foi assim, à base de uma persistência obstinada, que a Revolução Cubana se consolidou e se impôs, a ponto de influenciar a vida política do nosso continente. Não há mais dúvida, por exemplo, de que contribuiu, diretamente, para o golpe civil-militar no Brasil, bem como  para a série de quarteladas que teria sequência no chamado Cone Sul, ante o pânico que se assenhoreou dos formuladores da política externa norte-americana só em pensar numa 'segunda Cuba' num país com os recursos naturais e populacionais de um Brasil.
      O rompimento das relações pelos EUA foi precedido, ainda, pelo fracasso do embargo comercial decretado em outubro de 1960 e até por uma invasão da Ilha por exilados cubanos, financiados pela potencia imperial, na baía dos Porcos, em 1961, tentativas que só fizeram apressar a orientação socialista do novo regime de Havana.. E o socialismo que acabou resistindo e sobrevivendo até ao desmantelamento da poderosa União Soviética, e convencendo o presidente Obama da inutilidade de toda a pressão de mais de meio século sobre Cuba, é este que acabou de adentrar, com muito mojito para regar os papos, o casarão da Rua 16, em Washington.
      É o socialismo possível, isoladamente, num país pequeno e pobre, mas decidido a assegurar ao seu povo, desde então, o que se pode chamar de básico e fundamental, a própria essência da igualdade democrática de oportunidades: a saúde e a educação. Fora daí, tal princípio democrático só costuma dar as caras, muito raramente, às custas de acasos ou dos assim chamados milagres, área não abrangida pelos estudos do capital, de Karl Marx a Thomas Piketty.
      As prioridades norte-americanas, como sabemos, são outras, tanto que, antes de Obama chegar à presidência, a maioria da população nos EUA sequer podia contar com a garantia de um plano de saúde. Assim, o reatamento de modo algum vai eliminar as divergências e críticas que os dois governos e sociedades continuarão a fazer aos respectivos modelos. Aliás, o reatamento sequer equivale. neste caso, a uma normalização, pois o fim do ominoso embargo norte-americano é medida que transcende os poderes do presidente Obama.
     O reatamento é muito importante, enfim, mas apenas e sempre um primeiro passo, o avanço possível agora, de que tivemos a oportunidade de falar no programa do Dines (a propósito, onde mais poderíamos fazê-lo na nossa supostamente "democrática" mídia ?). O que não deve ser, no entanto, motivo de tristeza ou decepção, pois foi com um primeiro passo que se iniciaram movimentos como, por exemplo, a Longa Marcha (1934-1935), liderada por Mao Zedong, e a ascensão da China à grande potência mundial que já desbancou os EUA da posição de principal parceiro comercial do Brasil.

                             Arthur Poerner
 

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Dilma está pagando alto preço pelo combate à corrupção

   
   A Dilma está pagando um alto preço pelo seu combate sem tréguas à corrupção, pois os comentaristas políticos da grande mídia insinuam, com muita velhacaria e desonestidade intelectual, que o problema, por só agora chegar às manchetes, é recente, do século XXI, uma "invenção do PT". Para crucificar o Lula e a Dilma, e anistiar, de uma penada, não só o FHC, mas todos os seus antecessores, inclusive durante a ditadura, imposta ao nosso povo em nome da luta "contra o comunismo e a corrupção".
      Lembro-me dos anos 60, da nossa resistência ao arbítrio e à tirania pelas páginas do diário carioca "Correio da Manhã", onde, ao menor indício do despontar de um dos muito casos de corrupção da época, eram infalíveis os telefonemas da censura: "Nenhuma linha sobre o assunto !" Ordens estas que, é preciso acrescentar, eram desnecessárias na maioria das redações nacionais.

                                        Arthur Poerner

DEVOLVE, GILMAR !


                 

       O ministro Gilmar Mendes continua, no Supremo Tribunal Federal, sentado em cima da ação direta de inconstitucionalidade das doações de empresas às campanhas eleitorais, já aprovada pela maioria dos seus colegas, que proíbe o financiamento privado A infinita retenção, que ultrapassa todos os prazos minimamente razoáveis, favorece a trama dos que pretendem melar, no Congresso Nacional, a tão ansiada e necessária reforma política, sobretudo o projeto do PT, com voto em lista e financiamento público exclusivo. O Congresso Nacional mais reacionário deste século tende, ao que tudo indica, a aprovar um "jeitinho", na forma de um sistema de financiamento misto.

       Não podemos eleger os membros do STF, mas é preciso muito mais cuidado e atenção, gente, na hora de escolher os seus representantes na Câmara Federal e no Senado !

 

                                           Arthur Poerner