sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Maurício Azêdo: um rombo nas forças democráticas


Para Marilka
    
      Mais do que a costumeira 'lacuna' dos obituários e preitos fúnebres, a morte do jornalista Maurício Azêdo, meu querido amigo e presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI),  deixa um rombo nas forças democráticas e progressistas do país, em que ele, como os expoentes da nossa geração, despontou em meados dos anos 60, na resistência à ditadura militar.
     Com o progressivo desmantelamento pelo regime das lideranças e dos partidos políticos, assim como dos movimentos sociais, logo nos restariam, das organizações até então atuantes, somente a UNE e o PCB. Nós, Azêdo, eu e muitos jovens jornalistas, optamos pelo chamado 'Partidão', que nos propunha algo de bem racional: o caminho da luta de massas. Por isto, nossa palavra de ordem nas passeatas era "Só povo organizado derruba a ditadura". As únicas alternativas da época eram a troca do adjetivo por armado, o protesto filosófico-comportamental dos hippies, a desmoralizante inércia política ou, a pior de todas, o desbunde das drogas.
     Azêdo, como sempre preferi chamá-lo, escrevia muito bem, mas o que mais me chamava a atenção nele era o seu insaciável apetite pelo trabalho, o seu lado pé-de-boi. Impaciente e acionado por alguma força interna - uma úlcera, ao que se especulava -, não hesitava, por exemplo, em chamar a si partes de uma tarefa coletiva que cabiam a companheiros mais lentos ou contemplativos. Tive a oportunidade de comprová-lo no dia-a-dia do semanário de oposição Folha da Semana, lançado em setembro de 1965, do qual me tornei diretor dois meses depois, para substituir o advogado Alfredo Tranjan, que renunciara à função com a edição do Ato Institucional nº 2, o da extinção dos 13 partidos políticos então existentes.
     Todos ali, Sérgio Cabral, Luiz Mário Gazzaneo, Leandro Konder, Ferreira Gullar, Otto Maria Carpeaux, Alex Viany, Anderson Campos, José Carlos Avelar e tantos de que não me lembro de imediato, contribuímos para o cumprimento dos objetivos primordiais deste semanário inaugural da chamada imprensa alternativa pós-golpe militar: denunciar as violências da ditadura e clamar pela democracia. Tão bem, aliás, que o jornal mereceu fechamento por um garboso comando de fuzileiros navais, em dezembro do ano seguinte, quando eu já fora deposto, em julho, pelo decreto presidencial que me suspendera os direitos políticos. Mas, quem sempre 'carregou o piano', dando mais do que a sua cota - tínhamos que reconhecer -, foi o Azêdo, que seria preso e torturado em 1976.
     E ele continuou sendo assim, coerente e fiel à sua consciência e aos seus princípios, um guerreiro pela democracia e intransigente defensor da liberdade de expressão, até o final, aos 79 anos, na sexta-feira passada: nos inúmeros jornais em que exerceu as mais diversas funções da profissão, de repórter a diretor de redação; como militante e vereador do PDT; presidente  da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro; conselheiro do Tribunal de Contas do Município; e nos mandatos em que honrou as melhores tradições e lembranças de Barbosa Lima Sobrinho na presidência da ABI, onde encontrou vasto campo de atividades para a sua porção pé-de-boi, inclusive como um dos editores, ao lado do Francisco Ucha, do excelente Jornal da ABI.
     Morreu de insuficiência cardíaca no Rio, no Hospital Samaritano, em Botafogo. Deixa inconsoláveis a também incansável companheira Marilka, sempre ao seu lado, inclusive no trabalho, as duas filhas que teve com ela e os dois do primeiro casamento;  assim como inconformada, a incontável legião de amigos e admiradores, em que tenho o orgulho de me incluir.


Na eleição de abril deste ano, em que foi mais uma vez reeleito para a presidência da ABI, Azêdo aparece comigo e com o Sérgio Caldieri.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Convite: Fotobiografia de Antonio Callado


De Ana Arruda Callado:

Poerner, você está no livro. Espero você por lá.

Beijo,

Ana


sábado, 12 de outubro de 2013

Os 80 anos de João do Vale


Foto de Maria Luzia Couto Teixeira

     Não fosse o escritor Márcio Paschoal, meu vizinho no Leme e biógrafo do João do Vale, eu não me lembraria de que este grande compositor maranhense, meu querido amigo e inesquecível parceiro, se estivesse vivo, teria chegado ontem aos 80 anos de idade. Autor, entre outros sucessos, de "Carcará", "Pisa na fulô" e "Peba na pimenta", ele se tornou conhecido nacionalmente com o espetáculo musical "Opinião", o primeiro show de resistência à ditadura, encenado no Rio de Janeiro logo após o golpe militar, em 1964. Foi lá, no teatrinho da Siqueira Campos, em Copacabana, aonde não cansávamos de voltar, em busca de alento na resistência do Carcará à seca nordestina, que conheci João do Vale, Martinho da Vila ainda sargento e Caetano chegando com a Bethânia, que viera substituir Nara Leão, como menina da classe média da Zona Sul. O terceiro protagonista, representando a favela, era o Zé Kéti.
     A foto é do meu último encontro com o João do Vale, em São Luís, onde eu estava para palestra e noite de autógrafos, em outubro de 1995. Ele tinha voltado a morar no Maranhão e continuava, com o bom humor que nunca lhe faltou, tentando se refazer do AVC que o tornara dependente de cadeira de rodas. A nossa música, o coco "Pra multiplicar o bem" ou "Catirino", havia sido gravada, no ano anterior, pela Vanja Orico, com a participação especial do Quinteto Violado.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Paulo Freire


    Em 17 de setembro, Joyce da Frota Sobreira compartilhou um link no Facebook sobre a obra completa de Paulo Freire grátis para download:

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/04/obra-completa-de-paulo-freire-gratis-para-download.html

Arthur Poerner Muito importante, Joyce, esta disponibilização, pois este pernambucano foi, como o baiano Anísio Teixeira e o mineiro Darcy Ribeiro, um dos principais educadores que tivemos. Com o seu método de alfabetização, calcado na realidade e aliado à conscientização política dos alfabetizandos, ele dirigiu, no governo João Goulart, o Plano Nacional de Educação, até o golpe militar de 1964 forçá-lo a se exilar no Chile. O método foi adotado em outros países, e a sua tese, que "a melhor educação do mundo é 100% estatal, gratuita e universal", é dissecada em alguns dos seus livros, como " Educação como prática da liberdade" e "Pedagogia dos oprimidos". Durante o meu exílio, tive a oportunidade de conversar com ele num convento franciscano na Alemanha. Atualmente, quem mais se tem destacado na luta pela educação em nosso país é, a meu ver, o meu amigo senador Cristovam Buarque.

    Em 9 de outubro, recebi e-mail de Pedro Viegas:

Carísssimo Poerner

Lendo um comentário teu sobre o mestre Paulo Freire, recordei que tinha em meu arquivo algumas fotos dele, feitas por mim. Uma, em seu escritório, para a revista Imprensa. Mostrou-me feliz a casa que habitava. O tempo rolou e bem mais adiante voltamos a nos encontrar em um cinema, numa promoção do Sindicato dos Professores (Sinpro) de São Paulo, que apresentava o filme O que é isso companheiro (que não gostei e sigo não gostando). Mas ele estava emocionado. Conversamos um pouco. Apresentou-me sua companheira. Dias depois faleceu. Não tenho a data dessa foto, mas não é a data que importa, mas creio que foi sua última foto, ao menos ao que saiba. Estou enviando por respeito a ele, à sua memória. E dando liberdade para ser usada se preciso for por quem escrever sobre aquele gigante educador.
Abraços do sempre Viegas.

 Paulo Freire em seu escritório em São Paulo (1977)

Após a sessão exclusiva do filme "O que é isso, companheiro?" no Sinpro (1997)